Antigo blogue do projeto novasoportunidades@biblioteca.esjs

Antigo blogue do projeto novasoportunidades@biblioteca.esjs, patrocinado pela Fundação Calouste Gulbenkian
Escola Secundária José Saramago - Mafra

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

COLÓQUIOS DOS SIMPLES

Colóquios dos simples, e drogas e coisas medicinais da Índia, obra de Garcia de Orta, publicada em Goa, há 450 anos
Imagem daqui.


 
“Interessa aqui realçar a importância de Garcia de Orta e da sua obra à luz do seu tempo e dos Descobrimentos, uma época que, graças ao destacado contributo dos Portugueses, deu a conhecer povos e lugares até então ignorados pelos europeus.
A descoberta de um mundo repleto de novidades despertou os sentidos e a curiosidade, dando origem a uma produção científica e intelectual sem precedentes na história da humanidade que alargou horizontes, fez expandir o conhecimento e marcou a passagem para a modernidade.
Nascido em Castelo de Vide em 1500, Garcia de Orta haveria de se formar em Artes, Filosofia Natural e Medicina nas Universidades de Salamanca e de Alcalá de Henares, assimilando o saber e a erudição do seu tempo. Foi essa erudição que, juntamente com a sua sede de conhecimento, levou na bagagem ao embarcar para Goa em 1534.
O livro Colóquios dos simples, e drogas e coisas medicinais da Índia, aquando da sua publicação em Goa em 1563, apresentou a primeira descrição rigorosa feita por um europeu, da origem, das características botânicas e das propriedades terapêuticas de várias plantas e drogas medicinais, até ali desconhecidas ou erradamente descritas pela ciência de então.
Mais do que o importante contributo de Garcia de Orta para o desenvolvimento da Botânica, da Farmacologia, da Medicina ou da Antropologia, importa salientar o papel pioneiro que assumiu nessas áreas do saber, graças à sua independência de espírito e objetividade, não hesitando em dar primazia à sua experiência empírica, face ao conhecimento e à autoridade dos autores clássicos que estudou.
Garcia de Orta foi, acima de tudo, um exemplo de prevalência da liberdade intelectual face ao saber preconcebido, elemento que constitui a génese e o alicerce do método e conhecimento científico. É essa prevalência da Razão que, ainda hoje, constitui o motor do progresso e da evolução das civilizações.”
António Osório, in Agenda 2013, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2012.

 
Apresentam-se alguns excertos dos Colóquios 26º - Do Gengibre, 53º - Do Tamarindo, 12º - De Duas Maneiras da Camfora, e das Carambolas, e 13º - Do Cardamomo, e das Carandas, retirados da obra Colóquios dos simples, e drogas e coisas medicinais da Índia (semana 31):
“ORTA – (…) [o gengivre] nam o ha máo se o fazem em conserva (…); e he picado com buracos para lhe entrar a agoa, e se lhe fazem isto muytos dias, e o fartam bem de açucare, he muyto bom, e nam queima, nem leixa fios na boca. (…) Trazelha, moça, á mostra.
“ORTA – (…) e fazem deste tamarindo huma muyto graciosa conserva com açucare, e he feita delle fresco e sem sal. E podeme crer que he hum digistivo e purgativo muyto bom, e muyto aprazivel ao gosto. Moça, traze cá tamarindo em conserva.
“ORTA – (…) muitas pessoas acham nellas muito sabor, em especial as que chamamos agras doces, porque estas sam hum pouquo mais azedas; fazse dellas huma conserva de açucare muito graciosa, que eu mando dar em lugar de xarope acetoso (…). Antonia traze qua huma carambola em conserva.
“ORTA – (…) Chamam-se carandas, (…) estas verdes são salgadas, e esta provisam ha nesta terra, que fazem as fruitas salgadas pera incitar o apetite no tempo que as nam ha; e tambem as lançam em vinagre e azeite, a que chamam achar; (…) E pois estes Indios buscam tantas maneiras á gulla, comei.”

 

200 ANOS DE ORGULHO E PRECONCEITO

Jane Austen 1775-1818
Este mês de  janeiro assinala-se o bicentenário da primeira edição de Orgulho e Preconceito, romance da escritora inglesa Jane Austen.
A autora construiu um retrato com as convenções e costumes da sociedade rural inglesa do  seu tempo (início do século XIX).
Capa da 1.ª edição
A obra, publicada em 1813, terá sido escrita entre 1796 e 1797 sob o título Primeiras Impressões. Foi considerada a mais popular no mundo, tendo sido adaptada inúmeras vezes ao teatro, cinema e televisão. 
O jornal El Mundo destaca a efeméride, com a publicação de uma entrevista imaginária a Jane Austen. O leitor poderá lê-la aqui  e requisitar o livro na BE.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

DA CONCISÃO XII

Claude Monet, Impression: lever du soleil (1872)
Imagem daqui.
 
 
"Certos de que toda treva
Tem a sua madrugada."
 
Vinicius de Moraes, "Balada Negra"
 
 

O SONHO

Imagem daqui.
 
 
 
O SONHO

Nesta bela e linda imagem
O que eu vejo: a terra
O barco e o mar
O sonho deste alcançar

Entro nesse mesmo barco
Navego nele sem parar
Avisto ao longe um golfinho
Que me vem cumprimentar

Um cardume vejo andando
Sob o barco a saltitar
Olho-o, conta me dando
De quão belo é o mar

Sentado num canto fico
Escutando o som do mar
Tão calmante e relaxante
Que me deixa a sonhar

Ao longe avisto terra
Mas não quero lá voltar
Tenho a paz no coração
Que me oferta este mar

No futuro deixo tudo
Viajando sem parar
Eu escolho a Natureza
Para nela repousar.
Ericeira, 20 de janeiro de 2013
Escolha de imagem e autoria do poema: Firmino Mendes, Aluno do 12º N, desta Escola.
 

EXPOSIÇÃO E CICLO DE CONFERÊNCIAS NA GULBENKIAN

Imagem: Fundação Calouste Gulbenkian
 
Exposição sobre a ciência de portugueses e espanhóis na época dos descobrimentos, patente na galeria de exposições temporárias da sede da Fundação Calouste Gulbenkian, de 2 de março a 2 de junho de 2013.  Organizada em torno de quatro temáticas:
1. A imagem do mundo antes das viagens marítimas;
2. O contacto com as novidades da geografia, da botânica, da zoologia e da medicina;
3. A criação de novas disciplinas de base matemática e os desenvolvimentos tecnológicos;
4. O impacto da nova imagem do mundo no surgimento  da ciência moderna.

Realizar-se-á também um ciclo de conferências, no qual participaração especialistas portugueses e estrangeiros.

As escolas interessadas em participar  no ciclo de conferências poderão inscrever-se através do email conf360@gulbenkian.pt . Poderão também marcar uma visita temática à exposição através do site: http://www.descobrir.gulbenkian.pt/

O folheto informativo do ciclo de conferências bem como o cartaz da exposição encontram-se disponíveis na BE.

Informação complementar no sítio da Fundação Calouste Gulbenkian .

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

SALOIOS IV

Beatriz Costa (Charneca do Milharado, 1907 - Lisboa, 1996),
no filme Aldeia da Roupa Branca, de Chianca de Garcia (1939)
Imagem daqui.



“(…) entre os saloios também há Romeus, Julietas e Otelos”
João Paulo Freire

CARACTERÍSTICAS

Homem Saloio
                Quanto à estatura do saloio, há-os altos e baixos, mas na sua maioria mais baixos do que altos. Fortes, entroncados, com uma resistência de aço para os trabalhos do campo. Tez morena, pele encorreada pelos efeitos das intempéries. O uso da enxada enrija-lhe a musculatura. Ágil e ao mesmo tempo possante. Mãos calejadas. Cabelo preto, nariz grosso e saliente. Pernas geralmente arqueadas. Resistente e pacífico. Matreiro, desconfiado, tardo nas soluções, persistente, casmurro, relativamente pouco expansivo. A fatalidade ancestral da sua raça pesa-lhe nos movimentos. (…) Frugal. No meu tempo de rapaz, o saloio entre os vinte e os trinta anos usava bigode. Dos trinta em diante: ou barba à passa piolho, ou suíças. A suiça no saloio era um símbolo de respeitabilidade. Hoje tudo isso desapareceu, e o saloio apresenta-se como qualquer outro cidadão.
                Também Alberto Pimentel acha que o saloio é feio. Eis um ponto que eu não posso discutir, nem apreciar. Creio piamente que não foi entre os saloios que nasceu Adónis, mas não me parece que fosse aos saloios que Vítor Hugo arrancasse o seu modelo para Quasimodo

Mulher Saloia
                De facto, em geral, a saloia é morena e ossuda e não é bonita. Mas há, em toda a região saloia, lindíssimas raparigas, morenas, olhos negros, expressivos (…). Pode mesmo afirmar-se que não há aldeia onde não exista mais de um exemplar desta acentuada beleza saloia. Evidentemente, porque casam, vêm-lhes a lida da casa, a lida do campo, os filhos, e não há beleza que resista aos pesados trabalhos a que a saloia se entrega. A vida do campo exige um esforço que os habitantes da cidade desconhecem. A saloia cava, monda, sacha, ceifa, lava a roupa, sua ou alheia, e ainda por cima cuida do marido e dos filhos, e tem a seu cargo a lida da casa, que a faz toda, sem ajuda de ninguém se não tem filhos já crescidos. Isto, e um passadio quase sempre deficiente, desfaz-lhe os traços de beleza e torna-a, na maioria dos casos, feia e ossuda. O trabalho do campo pode dar saúde, mas não dá nem beleza nem elegância a ninguém. Mas não se diga, como o afirma Alberto Pimentel, que é raríssimo encontrar-se uma saloia bonita porque tal afirmação não é verdadeira.
                Se as há! De quantas me estou lembrando agora, recordando, à distância de meio século, algumas lindas raparigas saloias do meu tempo de rapaz! De Mafra, da Murgeira, da Póvoa, do Codeçal, do Livramento, do Sobreiro, do Gradil, da Encarnação, de Santo Isidoro, da Igreja Nova, de Cheleiros, tudo terras onde eu ia aos bailaricos e às festas, e onde as encontrava com seus olhos negros e árabes, com sua boca pequena e expressiva, quase todas de tipo miudinho, que a saloia é de estatura mediana (…). Esta afirmação de que só há saloias feias, faz-me lembrar a história do outro que afirmava que só havia castanhas assadas, porque na sua terra não existiam castanheiros. Geralmente as pessoas que afirmam esta enormidade só conhecem as lavadeiras já velhotas que vão à cidade buscar a roupa que eles sujam e elas lavam, e daí o tomarem a parte pelo todo (…).”
João Paulo Freire, O Saloio: sua origem e seu carácter: fisiologia, psicologia, etnografia, Porto, J.P:F., 1948, apud "O Saloio de A a Z", compilação de Maria Isabel Ribeiro, in Boletim Cultural 93, Câmara Municipal de Mafra, 1994, pp.274-280.
 
 
Nota
“Natural da Murgeira (Mafra), João Paulo Freire nasceu a 14 de Setembro de 1885, tendo falecido a 16 de Janeiro de 1953. Ingressou no Seminário de Santarém que acabaria por abandonar devido à falta de vocação. Prosseguiria os estudos na Escola Real de Mafra, tendo mais tarde optado pela vida militar, onde atingiu o posto de capitão graduado. Em 1917 foi mobilizado, seguindo para a frente francesa integrado no corpo expedicionário português.
Organizou e dirigiu os jornais Campo de Ourique (1908), Distrito de Beja (1909) e Diário da Noite (1932), tendo sido redactor de A Nação, A Capital, Diário de Notícias e Diário Ilustrado, do qual foi também chefe de redacção. Para além disso colaborou em muitos outros periódicos e na Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, usando com frequência os pseudónimos de Mário, João Veneno, Lichtenbey, Frei Gil de Alcobaça e Sant’Elmo. Deixou vasta bibliografia (…).”
Manuel J. Gandra e Isabel Ribeiro, “Vultos e Sombras, 2. João Paulo Freire”, Boletim Cultural 97, Câmara Municipal de Mafra, 1998, p.581.

GABRIELA LLANSOL

 M.G. Llansol em 1990 (fotografias de Álvaro Rosendo)

Penso que se morre com a sua biografia...

Esta noite apoio a mão na minha boca e penso, para brincar, nas espirais de liberdade da minha vida. Entre mim e a morte esvoaça a minha biografia. Um exercício sobre temas remotos que um dia se elevaram um pouco acima de nossas cabeças. O que havia para ver, nesse depósito de energia intensa, não será susceptível de ser guardado em nenhuma fonte, ou guardanapo dobrado de leitura.
Dispunha-me a ir jogar à bola no centro do pátio quando me introverti a pensar, intensamente, que um dia alguém se lembraria de não me deixar morrer. Morrer, do modo simples das toalhas, ou lençóis, que pousam abertos na terra.
eus sucessivos, simultâneos, estáticos, em movimentos, postos de claridade e de mistura incessante de pequenos vidros de ideias inteiras e partidas; composições que me apresentam para eu fazer, e que eu passo, porque sou livre,
a outro canto mais claro de mim mesma;
há um rosto aparente, tempo vencido e mal aureolado por uma moldura.
Saio para o pátio, para tentar continuar a estar só antes de vir para a Escola - jogando com as diferentes janelas de casa, entre as quais a do meu quarto,
que reflecte a da sala de jantar. 
Aprender a desobedecer assenta-me como uma capa, diz o Mestre-Escola, assenta-me como uma luz, diz o eu de um dos vícios que tenho. 
A bola foi escondida por detrás de um tufo de plantas tropicais, cactos em que só agora reparo. Dou então vários passos, de mim às tentativas que faço para desenvolver esta narrativa, que só flui mentalmente, e será retirada - verbo, energia, espaço e tempo - de memória. 
[...]
Desde que é possível que a minha vida sirva de paradigma, gostaria de a despir do seu envólucro exemplar. De passagem, atiro-me à ribeira lava; eu sou as vestes, ou o corpo nu, ou a idade nua de agora, ou a idade cinzenta/enérgica de amanhã? Ou as partículas de água que se reúnem e atraem, ou ________
Se me pensam, eu penso duplamente, triplamente, este é o caleidoscópio - a algibeira, a manga, a gola, o ocaso da mão, as pluriformes perspectivas de um espelho que não quero ter como berço. 
[...]
Esta biografia que esvoaça, e que se apresenta à minha frente como uma veste necessária de destinos originais, é ermo. Onde ela surge, desaparece o meu corpo humano. É tão absurda, melhor, cruel, como esta reflexão partindo da boca de uma criança.
Entrego ao Mestre-Escola, tal qual, este papel. Ele lê-o duas vezes, e imediatamente deixa de saber quem é, e onde está. 
[...]
É perigoso continuar aqui. Chamam-me; apanho do chão as minhas reflexões, e vou-me embora. 
Tomar estas notas para vós é o meu caminho por entre a morte. 

(Caderno 1.17, 26 de Fevereiro de 1985) 

BARRENTO, João (org.) - Europa em Sobreimpressão: Llansol e as Dobras da História. Lisboa: Assírio & Alvim. Espaço Llansol. 2011. 213 p. ISBN 978-972-37-1607-8


No dia 8 de março, haverá lugar na Biblioteca a uma mesa-redonda sobre a obra e a visão do mundo desta autora, de forma a torná-la mais acessível. 

Existem na Biblioteca vários exemplares de obras da escritora que podem ser consultados, de forma a aproximá-la dos nossos leitores.


Para uma informação mais detalhada, o Espaço Llansol realiza várias atividades disponíveis em:


segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

FRAGMENTOS DE UM DISCURSO


No dia 6 de fevereiro de 2013, será inaugurada a exposição Fragmentos de um Discurso, com fotografias de Maria José Palla. A mostra estará patente na Delegação Económica e Comercial de Macau em Lisboa, até ao dia 8 de março de 2013, de segunda a sexta-feira, das 9h00 às 20h00.

RELEMBRANDO VERGÍLIO FERREIRA (28/1/1916-1/3/1996)

A vida inteira para dizer uma palavra!
Felizes o que chegam a dizer uma palavra!
Saul Dias
 
I

Para sempre. Aqui estou. É uma tarde de Verão, está quente. Tarde de Agosto. Olho-a à volta, na sufocação do calor, na posse final do meu destino. E uma comoção abrupta - sê calmo. Na aprendizagem serena do silêncio. Nada mais terás que aprender? Nada mais. Tu, e a vida que em ti foi acontecendo. E a que foi acontecendo aos outros  - é a História que se diz? abro a porta do quintal. É um portão desconjuntado, as dobradiças a despegarem-se. Há muito tempo já que não vinhas. Sandra era da cidade, gostava da capital, detestava a vida da aldeia. Lá ficou. Abro a porta devagar, ela range para o espaço do jardim. É um jardim morto, as plantas secas, os canteiros arrasados nas pedras que os limitavam. Alguns têm só terra ou hastes secas de roseiras. (...) Um silêncio súbito, silêncio da terra. Só vozes ermas dos campos, ouço-as no calor parado da tarde. Reparo agora melhor no pequeno jardim. Uma selva bravia. As plantas selvagens irromperam de todo o lado, aos cantos dos muros à volta, junto à casa. Há algumas armações de madeira ainda, já apodrecidas, suspensas de arames, sem flores. Olho-o um instante , olho a casa, circunvago o olhar. Preparar o futuro - o futuro... E uma súbita ternura não sei porquê. Silêncio. Até ao oculto da tua comoção . Preparar o futuro, preparação para a morte. Está certo. Parte-se carregado de coisas, elas vão-se perdendo pelo caminho. Se ao menos uma ideia breve. Não tenho. Não é bem a vida que faz falta - só aquilo que a faz viver. (...)

FERREIRA, Vergílo - Para Sempre. Lisboa: Bertrand Editora. 2004. 14 ed., 306 p. ISBN 972-25-0268-9

Outras obras do autor disponíveis na BE: Aparição, Cântico Final, Contos, Até ao Fim,  Manhã Submersa, Pensar, Alegria Breve, Nítido Nulo, Promessa.  


BIBLIOTECAS

À procura de leitores rebeldes

A professora bibliotecária Maria João Queiroga, 51 anos, lembra-se bem da primeira visita de Marina Oliveira à biblioteca da escola. Cabelos loiros , olhos azuis, mais baixa do que os colegas, « parecia uma menina frágil quando veio para a Gil Vicente, no 5.º ano, mas, nessa visita, sempre que eu lhe pousava a mão no ombro, ela sacudia-me como se fosse uma mosca», recorda.
Passaram três anos e Marina não esqueceu esses tempos. «Tinha a mania de que era a dona da escola e andava sempre de nariz empinado». Tantas vezes os professores lhe deram «lições de vida» que mudou de postura. A mais recente vitória foi a participação num concurso da biblioteca sobre Jorge de Sena. «Nunca gostei de ler, mas a professora de francês convenceu-me a participar. Pensei que ia ficar em último e ganhei!», conta, orgulhosa. Agora, tem sempre um livro à cabeceira. 
Marina é um exemplo do tipo de leitores que Maria João Queiroga tenta captar. 
A biblioteca está integrada no projeto Ler+, do Plano Nacional de Leitura, e integra a Rede de Bibliotecas Escolares (RBE) desde 2006. No ano passado, a frequência foi de 331 leitores por dia. Coordenadora há oito anos, Maria João não tem dificuldade em explicar o sucesso:« Numa escola em que mais de metade dos alunos recebe apoio, a biblioteca dá-lhes acesso a muitas coisas que não têm em casa.» Filmes, computadores modernos e livros, claro. Apesar do sucesso, a eventual eliminação da figura dos professores bibliotecários, que desde o ano passado são obrigados a dar aulas, é um fator de preocupação para Maria João. « Se o cargo desaparece, será um retrocesso no trabalho da RBE, que está à vista.»
 
Artigo publicado na revista Visão desta semana, assinado por Teresa Campos, enquadrado no tema de capa "Os Bons Exemplos da Escola Pública".

www.visão.sapo.pt  N.º 1038 , 24 a 30 de janeiro 2013
 
Disponível na estante de periódicos.
 

DA CONCISÃO XI

Imagem daqui.

"Nas grandes empresas deve procurar-se não tanto o criar as ocasiões quanto o aproveitar as que se apresentam."

Umberto Eco, A Ilha do Dia Antes, Lisboa, Difel, 1995, p.165.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

XADREZ NA BIBLIOTECA (6)

Cartaz da autoria do Professor Luís Amorim e de alunos do 12.º S3 (2011)

III TORNEIO DE XADREZ DA ESJS 

18 de fevereiro a 15 de março de 2013

Inscrições até 8 de fevereiro

Organização: Equipa da BE e Professor José Avelar Rosa

AUTORRETRATO DE NATÁLIA CORREIA

Natália Correia (Ponta Delgada, 1923 - Lisboa, 1993)
Pintura de Carlos Botelho



“AUTO-RETRATO

Espáduas brancas palpitantes:
asas no exílio dum corpo.
Os braços calhas cintilantes
para o comboio da alma.
E os olhos emigrantes
no navio da pálpebra
encalhado em renúncia ou cobardia.
Por vezes fêmea. Por vezes monja.
Conforme a noite. Conforme o dia.
Molusco. Esponja
embebida num filtro de magia.
Aranha de ouro
presa na teia dos seus ardis.
E aos pés um coração de louça
quebrado em jogos infantis.”
Natália Correia, Poesia Completa, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2000, p.72.


quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

INVEJA E SOLIDÃO NO FACEBOOK

Imagem: Reuters/Thomas Hodel

Um estudo realizado pela Universidade Humboldt (Berlim) e a Universidade Técnica de Darmstadt mostra que o Facebook pode provocar inveja e solidão, segundo informação da Agência Reuters.
De acordo com o relatório “Envy on Facebook: a Hidden Threat to User’s Life Satisfaction?”, os principais motivos de inveja são as fotografias de férias divulgadas na rede e as pessoas que recebem muitas mensagens de parabéns quando celebram o seu aniversário.
“Ficámos surpreendidos com a quantidade de pessoas que se sentem solitárias e frustradas com a utilização do Facebook”, explica Hanna Krasnova , investigadora do  Instituto de Sistemas de Informação na Universidade de Humboldt. 

7 DIAS, 7 DICAS SOBRE OS MEDIA

Imagem: Rede de Bibliotecas Escolares
Integrado na Operação 7 Dias com os Media, projeto destinado à sensibilização dos cidadãos para o papel e lugar que os media tradicionais e de nova geração ocupam no seu quotidiano, o Gabinete para os Meios de Comunicação Social (GMCS) e a Rede de Bibliotecas Escolares (RBE), em parceria  com a Equipa de Recursos e Tecnologias Educativas (ERTE) da Direção-Geral da Educação e a Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), lançam o concurso 7 dias, 7 dicas sobre os media.
A iniciativa, dirigida aos alunos do ensino básico e secundário, pretende fomentar o uso crítico e criativo dos media, uma utilização mais segura da Internet e o respeito pelos direitos de autor.
A participação é feita através da produção de Dicas (alertas, recomendações e conselhos) em formato áudio, vídeo, apresentação eletrónica ou cartaz).
Os autores dos trabalhos vencedores de cada categoria (alunos do 1.º e 2.º ciclos do ensino básico; alunos do 3.º ciclo do ensino básico e secundário) serão distinguidos individualmente com um tablet.

CALENDÁRIO DA INICIATIVA
 
7 dias, 7 dicas sobre os media é uma iniciativa que, sugerimos, seja organizada através da colaboração entre a biblioteca escolar, professores, alunos e clubes de rádio e televisão escolares.
  • janeiro, 21 a 31: divulgação junto de alunos, professores, rádios e televisões escolares;
  • fevereiro e março: produção dos trabalhos e seleção interna do melhor, por escola/agrupamento e categoria definida:1.º/ e 2.º ciclos; 3.º ciclo/secundário;
  • abril, 7: último dia para o professor bibliotecário enviar o trabalho selecionado na escola/agrupamento, em cada uma das categorias a concurso;
  • maio, 3: comunicação dos resultados do concurso.
Fonte: Rede de Bibliotecas Escolares (RBE)
 
Mais informação no site da Rede de Bibliotecas Escolares 

CONSTANTINO CAVAFY

Constantino Cavafy, poeta grego
Alexandria, Egito, 1863 - 1933
Imagens daqui.


“A INTERVENÇÃO DOS DEUSES

Remonin
Ele há-de desaparecer no momento oportuno.
Os deuses hão-de intervir.
Mme de R.
Como nas tragédias antigas?
(Acto II, cena 1)
Mme de R.
O que é?
Remonin
Os deuses chegaram.
(Acto V, cena 10)
DUMAS FILHO, L’Etrangère

Que o teu coração saiba
…………………………………………….
Os deuses sempre vêm.
EMERSON, Give all to love

Faremos primeiro isto, aquilo faremos depois;
Mais tarde, - ao que calculo – em um ano ou dois,
As acções serão estas ou aquelas, os costumes assim ou assado.
Mas com soluções provisórias ninguém ficará contentado.
Havemos de procurar de todas a melhor.
E quanto mais procurarmos, pior,
Até darmos connosco em plena confusão.
E perplexos havemos de parar então.
Será dos deuses tempo de intervir.
Os deuses descerão, os deuses hão-de vir
Para salvar alguns, outros arrebatar
À força, pela cinta. E quando alguma ordem voltar,
Retirar-se-ão. E logo alguma coisa alguém fará,
E outro a seguir também. E toda a gente dará
O seu contributo ao progresso da vida.
E estaremos outra vez no beco sem saída.”

Constantino Cavafy, 90 e Mais Quatro Poemas, tradução, prefácio, comentários e notas de Jorge de Sena, colecção Terra Imóvel, Porto, ASA, 2003, p.26.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

LER OS CLÁSSICOS


Imagem daqui.


“Comecemos com umas propostas de definição.
1.       Os clássicos são os livros de que se costuma ouvir dizer. «Estou a reler…» e nunca «Estou a ler…»
É isto que se verifica pelo menos entre as pessoas que se pressupõe serem de «vastas leituras»; não se aplica à juventude, idade em que o encontro com o mundo, e com os clássicos como parte do mundo, é válido precisamente como primeiro encontro com o mundo.
O prefixo iterativo antes do verbo «ler» pode ser uma pequena hipocrisia por parte de quem tiver vergonha de admitir que não leu um livro famoso. Para o descansar bastará observar que por mais vastas que possam ser as leituras «de formação» de um indivíduo, fica sempre um número enorme de obras fundamentais que não se leu.
Quem leu todo o Heródoto e todo o Tucídides levante o dedo. E Saint-Simon? E o cardeal de Retz? Mas até os grandes ciclos de romances do século XIX são mais nomeados que lidos. (…) Os apaixonados de Dickens em Itália são uma restrita elite de gente que quando se encontra se põe logo a recordar personagens e episódios como se fossem pessoas suas conhecidas. Há anos Michel Butor, ao leccionar na América, farto de ouvir perguntarem-lhe por Émile Zola que nunca tinha lido, decidiu-se a ler todo o ciclo dos Rougon-Macquart. Descobriu que era completamente diferente do que julgava: uma fabulosa genealogia mitológica e cosmogónica, que descreveu num belíssimo ensaio.
Isto vem a propósito de dizer que ler pela primeira vez um grande livro em idade madura é um prazer extraordinário: diferente (mas não se pode dizer que é maior ou menor) do que se tem ao lê-lo na juventude. A juventude comunica à leitura, tal como a qualquer outra experiência, um sabor e uma importância muito especiais; enquanto na maturidade se apreciam (deveriam apreciar-se) muitos mais pormenores, níveis e significados. Assim, podemos tentar outra fórmula de definição:
2.       Chamam-se clássicos os livros que constituem uma riqueza para quem os leu e amou; mas constituem uma riqueza nada menor para quem se reserva a sorte de lê-los pela primeira vez nas condições melhores para os saborear.
De facto as leituras da juventude podem ser pouco profícuas por impaciência, distracção (…) e inexperiência da vida. Podem ser (se calhar ao mesmo tempo) formativas no sentido de darem uma forma às experiências futuras, fornecendo modelos, conteúdos, termos de comparação, esquemas de classificação, escalas de valores, paradigmas de beleza: tudo coisas que continuam a agir mesmo que do livro lido na juventude se recorde pouquíssimo ou mesmo nada. Ao reler o livro em idade madura, acontece reencontrar-se estas constantes que agora já fazem parte dos nossos mecanismos internos e de que tínhamos esquecido a origem. Há uma força especial da obra que consegue fazer-se esquecer enquanto tal, mas que deixa sementes. (…)”
Italo Calvino, Porquê Ler os Clássicos, Lisboa, Teorema, 1994, pp.7-8.

SUGESTÃO DE LEITURA (31)

O VAGABUNDO NA ESPLANADA

(...) A meio da esplanada havia uma mesa vaga. Com o à-vontade de um frequentador habitual, o homem sentou-se.
Após acomodar-se o melhor que o feitio da cadeira de ferro consentia, tirou os pés dos sapatos, espalmou-os contra a frescura do empedrado, sob o toldo. As rugas abriram-lhe no rosto curtido pela soalheira  um sorriso de bem-estar.
Mas o fato e os modos da sua chegada haviam despertado nos ocupantes da esplanada, mulheres e homens, uma turbulência de expressões desaprovadoras. Ao desassossego de semelhante atrevimento sucedera a indignação.
Ausente, o homem entregava-se ao prazer de refrescar os pés cansados, quando um inesperado golpe de vento ergueu do chão a folha inteira de um jornal, e enrolou-lha nas canelas. O homem, apanhou-a, abriu-a. Estendeu as pernas, cruzou um pé sobre o outro. Céptico, mas curioso, pôs-se a ler. 
O facto, de si tão discreto, pareceu constituir a máxima ofensa para os presentes. Franzidos, empertigaram-se, circunvagando os olhos, como se gritassem: «Pois não há um empregado que venha expulsar daqui este tipo!». Nas caras descompostas pelo desorbitado melindre, havia o que quer que fosse de recalcada, hedionda raiva contra o homem mal vestido e tranquilo, que lia o jornal na esplanada.
Um rapaz aproximou-se. Casaco branco, bandeja sobre o braço, muito senhor do seu dever. Mas, ao reparar no rosto do homem, tartamudeou:
- Não pode...
E calou-se. O homem olhava-o com atenta benevolência.
- Disse? 
- É reservado o direito de admissão - tornou o rapaz, hesitando. Está além escrito.
Depois de ler o dístico, o homem, com a placidez de quem, por mera distracção, se dispõe a aprender mais um dos confusos costumes da cidade, perguntou:
- Que direito vem a ser esse? 
- Bem... - volveu o empregado. A gerência não admite... Não podem vir aqui certas pessoas.
- E é a mim que vem dizer isso? 
O homem estava deveras surpreendido. Encolheu os ombros, como quem se presta a um sacrifício, deu uma mirada nas caras circunstantes. O azul-claro dos olhos embaciou-se-lhe.
- Talvez que a gerência tenha razão - concluiu ele, em tom baixo e magoado. - Aqui para nós, também não me parecem lá grande coisa.
O empregado nem podia falar.
Conciliador, já a preparar-se para continuar a leitura do jornal, o homem colocou as moedas sobre a mesa, e pediu, delicadamente:
- Traga-me uma cerveja fresca, se faz favor. E diga à gerência que os deixe ficar. Por mim,  não me importo.

FONSECA, Manuel da - O Vagabundo na Esplanada. In Tempo de Solidão. Editora Arcádia. 1973. 202 p.

Livro disponível na BE.
 

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

POETAS ARTISTAS E ARTISTAS POETAS

Imagem: Museu do Neo-Realismo

Poesia e Artes Visuais do Século XX em Portugal

Exposição patente, de 15 de janeiro a 30 de março, na delegação francesa da Fundação Calouste Gulbenkian (Paris), comissariada por Maria João Fernandes, integra obras de autores neorrealistas que pertencem à coleção do Museu do Neo-Realismo.

Informação complementar aqui

LEI DO GÉNIO

Manuel Antunes, Padre, Professor e Ensaísta
Sertã, 1918 - Lisboa, 1985
Imagem daqui.


Lei do génio. (…) A aventura mais pessoal de um poeta, de um artista, de um filósofo ou de um cientista, como a sua mais pessoal visão do universo e da existência, aparecem sempre, sem dúvida, como o produto de um mundo, de um determinado contexto físico, social, económico e político. Pensar contra o seu mundo, sentir contra o seu mundo, é ainda e sempre pensar e sentir em relação ao seu mundo, por reflexo de oposição ao seu mundo. Impossível a um autor, qualquer que ele seja, fazer desaparecer do seu horizonte as coordenadas de espaço, tempo e cultura em que o seu espírito se gerou. Esta lei comum ou esta dinâmica geral outra lei ou outra dinâmica, mais particular, a acompanha (…). No caso concreto da poesia, pelo simples facto de ela ser poesia e não filosofia ou ciência, por exemplo, ela possui o seu campo próprio, o seu espaço dinâmico próprio, a sua linha de força própria em que jogam, sobretudo, a Imaginação transcendental, o Ritmo transcendental e a Sensibilidade transcendental. É nesse espaço que uma certa visão do universo e da existência se constitui em nova dimensão, uma dimensão dada pela palavra. Não pela palavra-logos do rigor racional e objectivo, não pela palavra-logos da verbalidade quotidiana, mas pela palavra-mythos que confere, à sensação, à percepção, à ideia e ao sentimento, um sentido originário, pela palavra-mythos que descobre ou manifesta as correspondências do mundo e as articula em novo mundo, pela palavra, expressão do incontornável da sabedoria no limite do silêncio. Pelas duas leis – ou dinâmicas – do reflexo e do género, o poeta é, sobretudo, passivo. Pela lei – ou dinâmica – do seu génio próprio, ele é, sobretudo, activo. Por esta, pode dizer-se que o mundo é um reflexo seu. Encontrando-se, de facto, no mundo, ele suscita um mundo. Um mundo que, por sua vez, será a perspectiva através da qual muitos verão e sentirão o mundo. (…)”
Manuel Antunes, Teoria da Cultura, coordenação, revisão e notas de Maria Ivone de Ornellas de Andrade, Lisboa, Edições Colibri, 2002, pp.115-116.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

POESIA VISUAL: SONETO

Soneto soma 14x, E.M. de Melo e Castro (1963)


A CULTURA COMO TRAÇO DE UNIÃO...



Imagem daqui.

“Estão na moda as reflexões em torno do futuro de Portugal. Sempre me pareceram uma ilusão perigosa. Leitor impenitente dos clássicos, desde os humanistas que meditaram acerca do camoniano «desconcerto do mundo» até aos neo-garrettianos, aos integralistas e aos seareiros, partilho de muitas das ideias de António Sérgio e penso que um pouco de racionalismo e de consciência do presente nos evitaria a tentação, um tanto sebástica, de mitificar o futuro, como se os Portugueses não houvessem de encontrar, no dia a dia, caminhos superadores das várias crises que sobre eles periodicamente se abatem. É no presente, e pelo presente, na avaliação ponderada das possibilidades ao nosso alcance, que temos de procurar a Aufhebung hegeliana, superadora das tensões e antinomias tradicionais (do tipo esquerda/ direita, mais Estado/ menos Estado, diálogo/ bloqueio, passado-recente/ passado-remoto, etc.); pois, enquanto os Portugueses esbanjam tempo, energias e dinheiro em questiúnculas caseiras, outros povos derrubam muros, traçam planos, cumprem metas, guiam-se friamente por objectivos programados, progridem enfim, aliás com o mesmo espírito com que o Infante D. Henrique levou avante os Descobrimentos, Egas Moniz alcançou o Prémio Nobel e o Prof. Moniz Pereira preparou os Carlos Lopes e as Rosas Motas. O aviso mais sério aos Portugueses, que ouvimos nos últimos tempos, fê-lo um economista estrangeiro, Michael Porter, ao recomendar a Portugal que tivesse cuidado com as rupturas bruscas na sua tradição secular. (…)
Não há cultura fora do ecossistema onde ela se enraíza, cresce e dá frutos. Isto disse, por outras palavras, o avozinho Garrett, quando, nas páginas das Viagens na Minha Terra, descreveu a decadência de Santarém, certamente com o pensamento em Portugal. Sentiram-no os intelectuais da Geração de 70, sobretudo Eça, Ramalho e Teófilo. Perceberam-no os neo-garrettianos finisseculares, intuíram-no os integralistas maurassianos (…), mas talvez ninguém melhor do que Miguel Torga, ao longo de mais de meio-século, tenha sabido despertar-nos para esta realidade, sobretudo nas páginas do seu Diário.
O valor cultural que podemos acrescentar à Europa passa por uma espécie de adaptação do país económico e tecnológico ao país cultural. As transformações ocorridas na sociedade portuguesa dos últimos vinte anos, em domínios tão significativos como a educação e o ambiente, a informática e as telecomunicações, impõem um reexame aprofundado das nossas possibilidades de sobrevivência como nação culturalmente independente. Precisamos, enfim, como sugeria o Prof. Manuel Antunes pouco antes de morrer, de repensar Portugal à luz de novas realidades internas e externas. Desafio tanto mais fecundo e aliciante quanto é verdade que a questão cultural tenderá a ser, cada vez mais, não um factor de divisão, mas um traço de união entre os Portugueses.”
1994
Artur Anselmo, “Para uma ecologia da cultura”, in Ler é Maçada, Estudar é Nada, Lisboa, Guimarães Editores, 2008, pp.115-119.

sábado, 19 de janeiro de 2013

EUGÉNIO DE ANDRADE

Retrato do poeta, Alfredo Luz, 1989



AS AMORAS

O meu país sabe às amoras bravas
no verão.
Ninguém ignora que não é grande,
nem inteligente, nem elegante o meu país,
mas tem esta voz doce
de quem acorda cedo para cantar nas silvas.
Raramente falei do meu país, talvez
nem goste dele, mas quando um amigo
me traz amoras bravas
os seus muros parecem-me brancos,
reparo que também no meu país o céu é azul.

 
Eugénio de Andrade
Póvoa de Atalaia, 19 de janeiro de 1923
Porto, 13 de junho de 2005
 

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

SEMANA DA LEITURA 2013

Fotografia: arquivo da Biblioteca ESJS (2007)

De 11 a 15 de Março decorrerá a Semana da Leitura, este ano, centrada na temática do mar.

Participe!

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

DA CONCISÃO X

código de hamurabi
 
Aos poetas prolixos, um
par de versos como cela.
 
José Mário Silva, Luz Indecisa, Alfragide, Oceanos, 2009, p.32.
 
 

CONCURSO BLOGS DO ANO 2012

Imagem: blogue Aventar

 INFORMAÇÃO

A pedido dos organizadores do concurso promovido pelo blogue AVENTAR, vimos esclarecer que as irregularidades referidas no post do dia 12-1-2013 são técnicas.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

CINEMA E POESIA

Greta Garbo, em Rainha Cristina, de Rouben Mamoulian (1933)
Imagem daqui.


“ADEREÇOS E GUARDA-ROUPA

O casaco de Cher
no filme Sob Suspeita
O sorriso de Cher
no mesmo filme
e os olhos grandes
As costas nuas
de Nicole Kidman
a abrir o genérico
A mala de Jerry Lewis
no Homem das Mulheres
Lewis outra vez
com as calças curtas
e os dentes de coelho
A caixa de madeira
oferecida pelo filho
de Henry Fonda
a Miss Lilith
(Arrebatamento
é a palavra
dita por Vincent)
O tremor do par
que se senta no sofá
da Idade da Inocência
O vestido dela
as mãos dela
e os olhos dele
no pescoço dela
O copo de Dean Martin
no filme Rio Bravo
A roupa interior
da mulher de Rio Bravo
todos os objectos
de Rio Bravo
e todos os gestos
que ali se contemplam
A cicatriz no olho
de Marlon Brando
e o dar a ver a alma
como uma cicatriz
O brilho de Eleanor Parker
em O Homem
do Braço de Ouro
por nada
só porque brilha
Garbo no final
de Rainha Cristina
ela que tinha o apelido
de Gustafsson
e aquele terror
cândido e neutro
de quem sabe
que o amor não está
onde o convocamos
A suave Jean
mais uma imagem
perguntando baixinho
o que ele sabe
da vertigem
com que Lilith
vai enlouquecer
o paraíso prometido
e também o inferno
já alcançado
O pânico de Pacino
sentado em Needle Park
tudo tão azul
como uma mensagem
de um oceano furioso
Há mais azuis
nos cenários de cristal
da memória
enquadrada pelo
presente a desmoronar-se
Eu até vi azul
na planície cósmica
do Rio Vermelho
O casaco amarelo
de Dick Tracy
e também o chapéu
As lágrimas
de Sarah Jennings
e o método
com que ela as chora
O olhar em volta
sou eu a atravessar
os salões do palácio.”
João Lopes, “Adereços e Guarda-Roupa”, in Poemas com Cinema, antologia organizada por Joana Matos Frias, Luís Miguel Queirós e Rosa Maria Martelo, Lisboa, Assírio & Alvim, 2010, pp.121-124.