Antigo blogue do projeto novasoportunidades@biblioteca.esjs

Antigo blogue do projeto novasoportunidades@biblioteca.esjs, patrocinado pela Fundação Calouste Gulbenkian
Escola Secundária José Saramago - Mafra

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

RECADO: FELIZ ANO NOVO!

Imagem daqui.
 
 
BICICLETA DE RECADOS
Na minha bicicleta de recados
eu vou pelos caminhos.
Pedalo nas palavras atravesso as cidades
bato às portas das casas e vêm homens espantados
ouvir o meu recado ouvir minha canção.

Na minha bicicleta de recados
eu vou pelos caminhos.
Vem gente para a rua a ver a novidade
como se fosse a chegada
do João que foi à Índia
e era o moço mais galante
que havia nas redondezas.
Eu não sou o João que foi à Índia
mas trago todos os soldados que partiram
e as cartas que não escreveram
e as saudades que tiveram
na minha bicicleta de recados
atravessando a madrugada dos poemas.

Desde o Minho ao Algarve
eu vou pelos caminhos.
E vêm homens perguntar se houve milagre
perguntam pela chuva que já tarda
perguntam pelos filhos que foram à guerra
perguntam pelo sol perguntam pela vida
e vêm homens espantados às janelas
ouvir o meu recado ouvir minha canção.

Porque eu trago notícias de todos os filhos
eu trago a chuva e o sol e a promessa dos trigos
e um cesto carregado de vindima
eu trago a vida
na minha bicicleta de recados
atravessando a madrugada dos poemas.

Manuel Alegre, Poesia, volume I, Lisboa, Dom Quixote, 2009, p. 39.
 

sábado, 29 de dezembro de 2012

DA CONCISÃO VII

"Os mares, as chuvas, a necessidade, o desejo, a luta contra a morte - são estas as coisas que nos unem a todos."
Albert Camus
 
A frase de marear de hoje, do Diário de Notícias.
 
 

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

ZEITGEIST 2012

Zeitgeist traduz o estado cultural e conceptual de uma determinada época, em suma, o espírito dominante. 
O termo foi introduzido em 1769 por Johann Gottfried von Herder quando escreveu uma crítica ao trabalho Genius Seculi do filólogo Christian Adolph Klotz. 




MINAS DO OURO

Cidade de Ouro Preto, Minas Gerais, Brasil.
Imagem daqui.


“Do que me foi dado apurar alcanço apenas o aquém-mar, desde que os portugueses aportaram nestas terras brasílicas convencidos de ser aqui o desmundo. Atolaram-se no equívoco. Pululava, matas adentro, indiada incontável, gente abrasiliada há séculos, outro mundo.
Do alto de naus e caravelas descendeu a iberada lusitana calcada na ignorância. Trazia o pau de fogo em uma das mãos e a Bíblia na outra. Tinha os indígenas na conta de desculturados, desprovidos de luzes e letras, mais próximos a bichos que a homens. Faltou tino aos aportados. O que a mente não vê os olhos não enxergam. Fossem menos obtusos, teriam captado: a povoada selvática exalava tanta cultura quanto os súditos manuelinos do outro lado do oceano. Só que diferente, nem pior, nem melhor – outras línguas, outros costumes, outros jeitos. Saber desescrito de livros; porém gravado no alarido dos macacos, na correnteza dos rios, na palma dos coqueiros, no sutil deslocar das formigas prenunciando inundações, nos rituais cujas fogueiras respondiam crepitantes aos acenos da lua cheia.”
Frei Betto, Minas do Ouro, Rio de Janeiro, Rocco, 2011, p. 13.

Da badana do livro:
“Este novo romance de Frei Betto descreve a saga da família Arienim através de cinco séculos de história das Minas Gerais.
Em torno de um misterioso mapa de «inesgotáveis fontes de riqueza», repassado de geração em geração, a narrativa abarca episódios e figuras emblemáticas da história mineira: entradas e bandeiras; guerra dos Emboabas e Triunfo Eucarístico; a exploração de ouro e diamante; Tiradentes e Aleijadinho; mina de Morro Velho e as coincidências entre o explorador Richard Burton e o ator do mesmo nome.
Minas de Ouro, garimpo da memória familiar, é um romance no qual o barroco transparece na sua volúpia e beleza, numa linguagem de primorosa qualidade estética.”

SUGESTÃO DE LEITURA (29)


(...) Lucio é o único habitante do lugar com preocupações literárias, mantendo carinhosamente uma biblioteca e não hesitando em condenar as obras de menor qualidade ao Inferno - um quarto sombrio onde as baratas se entregarão aos prazeres da destruição.

David Toscana nasceu na cidade de Monterrey, México, em 1961. Licenciado em Engenharia Industrial e de Sistemas, a sua obra tem sido alvo de inúmeras distinções e está traduzida em alemão, árabe, inglês, sérvio e sueco.
(da contracapa da obra) 


Entram na biblioteca três mulheres. Pensamos que foi o senhor que corrigiu a carta para Evangelina, diz uma delas. Já fomos consultar o dicionário com o professor Rocha e é verdade, fé escreve-se com acento, mas ninguém tem o direito de alterar um texto sagrado. Outra aproxima-se de Lucio com a Bíblia, pousa-a na secretária e abre-a nas últimas páginas. Olhe, mostra-lhe dois versículos sublinhados. Leia isto. Ele vira a Bíblia para si e, tal como costumava fazer quando tinha gente à volta, lê em voz alta: Aviso todo aquele que escutar as palavras da mensagem profética deste livro: se alguém lhe acrescentar alguma coisa, Deus acrescentar-lhe-á as pragas aqui descritas. E se alguém tirar palavras deste livro de profecia, Deus tirar-lhe-á a sua parte da árvore da vida e da cidade santa, descritas neste livro. A redacção parece-lhe desajeitada, com repetições evitáveis; relê em silêncio e só então ergue o olhar. A terceira senhora fala-lhe dos riscos que a sua alma corre por andar a modificar frases sagradas e expressa alguns argumentos que Lucio já não ouve; tem a cabeça na passagem bíblica. Qual a razão daquela advertência? (...)

TOSCANA, David - O Último Leitor. Cruz Quebrada: Oficina do Livro. Colecção Ovelha Negra. 2008. 210 p. ISBN 978-989-555-293-1

Livro disponível na BE. 

Capa da edição Alfaguara, México

CINEASTAS DIGITAIS

O concurso "Cine@stas Digitais", promovido pelo Centro de Competências TIC "Entre Mar e Serra", é dirigido aos alunos do 3.º ciclo do Ensino Básico e do Ensino Secundário e Profissional das escolas portuguesas públicas e privadas. 
A iniciativa pretende incentivar a criatividade e promover a utilização das TIC em contexto escolar.

A Declaração Universal dos Direitos do Homem e o Ano Internacional da Cooperação pela Água são os temas escolhidos para este ano.

O concurso engloba três categorias:

Opção A - VídeoCurtas (tema livre);

Opção B - VídeoNarrativas (Declaração Universal dos Direitos do Homem);

Opção C - NanoVídeo (Ano Internacional da Cooperação pela Água).

Inscrições até 28 de junho de 2013.

Para mais informações, consulte o sítio cineastas digitais.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

APRUMO DE VIME BRANCO

Imagem daqui.
 
 
"(...) foi Camões que deu à nossa língua este aprumo de vime branco, este juvenil ressoar de abelhas, esta graça súbita e felina, esta modulação de vagas sucessivas e altas, este mel impaciente por penetrar a pedra. Daí ser raro o verso português digno de tal nome que as águas camonianas não tenham molhado de luz, desde as mais ásperas das suas consoantes às suas vogais mais brandas. (...)"
 
Eugénio de Andrade, in Versos e Alguma Prosa de Luís de Camões, Porto, Editorial Inova, 1972.

O RAIO DE SOL

Salvatore Quasimodo, poeta italiano, agraciado com o Prémio Nobel da Literatura em 1959 (Modica-1901, Nápoles-1968)
Imagem daqui.

 
E subitamente é noite
 
Cada um de nós está só no coração da terra
atravessado por um raio de sol;
e subitamente é noite.


Ed è subito sera
Ognuno sta solo sul cuor della terra trafitto da un raggio di sole: ed è subito sera.

Três Momentos da Poesia Europeia (De Safo e Píndaro a Ungaretti e Salinas), selecção, tradução e notas de Albano Martins, Porto, Edições Afrontamento, 2012, p.99.
 

SEM ERROS


No sítio da Porto Editora, Dúvidas da Língua Portuguesa esclarece alguns erros mais frequentes.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

HARMONIAS PROFUNDAS

Sandro Penna, poeta italiano (Perugia-1906, Roma-1977)
Fotografia daqui.
 
 
Moralistas
 
O mundo que vos parece feito de cadeias
está todo tecido de harmonias profundas.
 
Três Momentos da Poesia Europeia (De Safo e Píndaro a Ungaretti e Salinas), selecção, tradução e notas de Albano Martins, Porto, Edições Afrontamento, 2012, p.112. 

PAISAGENS DE INVERNO

Fotografia do Professor Martinho Rangel

II

Passou o Outono já, já torna o frio...
- Outono de seu riso magoado.
 Álgido Inverno! Oblíquo o sol, gelado...
- O sol, e as águas límpidas do rio. 

Águas claras do rio! Águas do rio,
Fugindo sob o meu olhar cansado,
Para onde me levais meu vão cuidado?
Aonde vais, meu coração vazio?

Ficai, cabelos dela, flutuando,
E, debaixo das águas fugidias,
Os seus olhos abertos e cismando...

Onde ides a correr, melancolias?
- E refractadas, longamente ondeando,
As suas mãos translúcidas e frias...

PESSANHA, Camilo - Paisagens de Inverno II. In Clepsidra e Outros Poemas. Lisboa: Edições Ática. Colecção Poesia. 1983, p.39.

Saber mais: 

PAISAGENS DE INVERNO

Fotografia do Professor Martinho Rangel

I

Ó meu coração, torna para trás. 
Onde vais a correr, desatinado.
Meus olhos incendidos que o pecado
Queimou - o sol! Volvei, noites de paz.

Vergam da neve os olmos dos caminhos.
A cinza arrefeceu sobre o brasido.
Noites da serra, o casebre transido... 
Ó meus olhos, cismai como os velhinhos.

Extintas primaveras evocai-as:
- Já vai florir o pomar das macieiras.
Hemos de enfeitar os chapéus de maias. - 

Sossegai, esfriai, olhos febris.
- E hemos de ir cantar nas derradeira
Ladainhas... Doces vozes senis... -

PESSANHA, Camilo - Paisagens de Inverno I. In Clepsidra e Outros Poemas. Lisboa: Edições Ática. Colecção Poesia. 1983, p.38.

Livro disponível na BE.

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

A ESTRELA DA ESPERANÇA

Imagem daqui.
 
 
"O Natal agita uma varinha mágica sobre todo o mundo e, observem,
tudo é mais suave e mais bonito."
Norman Vincent Peale
 
 

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

SUGESTÃO DE LEITURA (28)


(...) Existem momentos em que já não é noite e ainda não é dia no coração humano, quando as feras saem dos esconderijos sombrios da alma, quando estremece no nosso coração e se transforma em movimento na nossa mão uma paixão que formámos e domesticámos em vão durante anos, às vezes, durante muito tempo... E tudo foi em vão, negámos desesperadamente, perante nós próprios, o sentido verdadeiro dessa paixão: o conteúdo real da paixão era mais forte que as nossas intenções, não se derreteu, ficou sólido. No fundo de cada relação humana existe uma matéria palpável e, por muitos que sejam os argumentos e habilidades, essa realidade não muda. (...) Porque a paixão não argumenta com palavras da razão. Para a paixão é completamente indiferente aquilo que recebe do outro, quer exprimir-se por inteiro, quer transmitir a sua vontade, mesmo que não receba em troca mais do que sentimentos ternos, cortesia, amizade ou paciência. Todas as grandes paixões são sem esperança, de outra forma não seriam paixões, apenas acordos, compromissos razoáveis, trocas de interesses banais. (...) 

MÁRAI, Sándor - As Velas Ardem Até ao Fim. Lisboa: Publicações D. Quixote. 2001. 158 p. ISBN 972-20-2062-5

Livro disponível na BE. Procure-o na Classe 8 (Língua. Linguística. Literatura).

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

SEM PALAVRAS VII

Classical Christmas Medley (Instrumental Music), de tcom324, disponível no YouTube.

 

JORGE DE SENA, O MENINO JESUS E O PAI NATAL

Imagem daqui.


“RAZÃO DE O PAI NATAL TER BARBAS BRANCAS

Para os filósofos, como meditação demonológica acerca do VIII poema
de «O guardador de rebanhos» de Alberto Caeiro.
Para as crianças grandes, como apólogo humorístico.
Para os meninos pequenos, como verdadeiro conto de Natal.

I
Como toda a gente sabe, e os meninos melhor que ninguém, o Natal é uma coisa muito velha. O que nem toda a gente sabe é que, no princípio, ele não era pai; nem era velho, e não tinha, portanto, barbas brancas. Assim, quando o menino Jesus nasceu, já todos os meninos punham o sapato na chaminé.
A única diferença era que a chaminé não tinha, como hoje, fogão de gás ou fogareiro. Depois, com o menino Jesus, veio outra diferença: também ele punha o sapatinho, que, por acaso, era uma sandália.
Isso durou pouco? Não, porque o menino Jesus só cresce e se faz homem quando os outros meninos crescem e julgam que se fazem homens. O que, e lá isso é verdade, não acontece a toda a gente, como os meninos terão muito tempo para ver. Mas isso é já outra história, que os meninos aprenderão, sem que ninguém lha conte.
A que vou contar começa quando o menino Jesus ia fazer sete anos, idade que é muito importante, visto que são sete as maravilhas do mundo. O menino Jesus, como os outros meninos, tinha vontade de crescer e não acreditava no Natal. Ele bem sabia quem punha os brinquedos na sandália (era a Mãe), e, por não haver então lojas de brinquedos, e, mesmo que houvesse, não terem os pais do menino Jesus dinheiro para os comprar (os brinquedos já eram muito caros), ele bem vira S. José estar a fazer uma carrocinha, às escondidas. Por isso, naquela tardinha, sempre muito comprida, que há antes da noite de Natal, noite que, por sua vez, é a mais comprida do ano, o que lhe valeu ser ela a Noite de Natal; por isso, como ia dizendo, o menino Jesus, que estava à espera de lhe darem a carroça, fingia que se não importava, fingia, até, não esperar coisa alguma. A tarde estava muito bonita, segundo me disseram, e é natural que estivesse: o Natal ia ser pai e, o que é muito mais, ganhar as suas barbas brancas. O céu fazia-se verde e amarelo e cor-de-rosa, que são cores que as pessoas grandes não gostam de ver no céu, e que todos os meninos sabem que lá se vêem muito bem. O menino Jesus, é claro, via-as melhor que ninguém. E, então, para disfarçar, começou a contar as nuvenzinhas soltas, que estavam todas paradas, muito quietas de propósito para ele contar – mal imaginavam o que lhes ia acontecer. O menino Jesus sentara-se numa pedra (pedra que ainda lá está na terra dele, embora ninguém saiba qual é), à beira do caminho, e, com uma varinha (que não era de condão, pois só as fadas precisam desses objectos), fazia riscos na poeira. A poeira, coitada, era mais lama que outra coisa, porque chovera de manhã, e o sol não tivera tempo de a secar. Ora, o menino Jesus, umas vezes olhava para o céu, outras olhava para o chão, e qualquer pessoa com dois dedos de testa logo perceberia que ele estava a desenhar nuvens. Mas parece que estas coisas são muito difíceis de perceber, como os meninos sabem pelas perguntas parvas que muitas pessoas crescidas costumam fazer.
- Que estás tu para aí a riscar, pequeno?
O menino Jesus voltou-se (quando nos fazem perguntas destas, a gente está sempre de costas), e viu um homem muito bem vestido que até parecia mentira. O menino não se deixou enganar, porque a pergunta estragara o fato do homem, e era como se estivesse todo rasgado e com a fralda de fora.
- Estou a fazer riscos.
- Isso vejo eu. Que riscos?
- Só riscos.
O homem mostrou uma cara muito má, e o menino Jesus foi pondo os pés a jeito, para o caso de ser preciso levantar-se de repente e fugir a correr.
- Estás a armar em esperto, mas a mim não me enganas.
O menino Jesus (…) riu-se, mas só por dentro, por causa da má cara do homem.
- É mal fazer riscos? – perguntou.
- Se é! Ora experimenta lá.
O menino Jesus ficou desconfiado, e traçou um risco, um muito pequenino. E qual não foi o seu espanto ao ver a varinha ficar presa ao chão! Ver não viu, mas quis tirá-la e não pôde.
Claro que, dessa feita, quem se riu foi o homem. Ora é sabido que o diabo não se pode rir muito alto, porque lhe sai enxofre pelos intervalos do riso. E assim aconteceu. O menino Jesus sentiu o cheiro, viu o fumozinho a sair da boca do homem, era quase noite (anoitecera quase de repente), não passava ninguém na estrada, ele estava um bocado longe de casa, e, apesar de ser quem era, teve medo, um medo enorme, um medo ainda maior que o diabo.
Estão a ver o menino Jesus nestes assados. Que faria qualquer menino? Evidentemente, não mostrava medo, que é a melhor maneira de assarapantar o demónio. Foi o que ele fez. Fingiu que não queria a vara para nada (e queria porque era uma bela vara, muito direita), e disse:
- Bem, são horas de voltar para casa.
- Ah, sim? E porquê? – (o diabo a ver se ele caía).
- Tenho lá o Natal à minha espera.” (…)
Jorge de Sena
A Arte de Jorge de Sena, edição de Jorge Fazenda Lourenço, Lisboa, Relógio d’Água Editores, 2004, pp. 167-169.


TAMBÉM É NATAL NA BIBLIOTECA

Fotografias do Professor Martinho Rangel

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

NATAL

Fotografia do Professor Martinho Rangel

THOMAS HARDY

A Véspera de Natal 

A véspera de Natal chegou e o grande tema de conversa em Weatherbury era a festa que Boldwood ia dar nessa noite. Não era a parcimónia de festas de Natal na paróquia que fazia desta algo de extraordinário mas, sim, o facto de Boldwood ser o anfitrião. O anúncio da festa tinha tido um impacto inusitado e incongruente, o efeito semelhante ao se alguém estivesse a jogar croquete na nave de uma catedral ou um eminente juiz subisse para cima de um palco.
Que a festa prometia ser uma onde imperaria o verdadeiro espírito jovial, disso não havia quaisquer dúvidas. Um enorme ramo de visco, que tinha sido trazido dos bosques nesse dia, estava suspenso no hall de entrada da casa do celibatário. Seguiam-se-lhe os ramos abundantes de azevinho e hera. Desde as seis horas dessa manhã até depois do meio-dia, o fogo da enorme lareira da cozinha zunia e flamejava na sua máxima potência; a chaleira, a frigideira e a caçarola de três pernas surgiam por entre as chamas como Shadrach, Meshach e Abednegro. Mais ainda, operações de assar e regar os assados com molho corriam, ininterruptamente, em frente às labaredas formidáveis. 
À medida que entardecia, acendeu-se a lareira do vasto e comprido hall no qual as escadarias desembocavam e retiraram-se todos os obstáculos para o baile. O toro que estava destinado a ser queimado nessa noite era um tronco inteiro de uma árvore, de tal forma portentoso que não podia ser nem carregado nem empurrado para o seu lugar; e, como tal, quando a hora da reunião se aproximasse, poder-se-ia observar dois homens a arrastar e a levantar o tronco com a ajuda de correias e alavancas.
Apesar disto tudo, não reinava um espírito de festa na casa. Tal feito nunca havia sido realizado anteriormente pelo seu dono e os preparativos para a festa pareciam deslocados. Toda e qualquer brincadeira acabava por redundar em algo revestido de grandiosidade e solenidade; a comunhão de todos os esforços era levada a cabo friamente por mercenários e uma sombra parecia pairar sobre as salas, lembrando que os preparativos eram tão estranhos àquele lugar como o homem solitário que ali habitava e que, como tal, não eram verdadeiros.

Far from the Madding Crowd
Traduzido por Ana Matoso


Thomas Hardy (1840-1928) romancista e poeta inglês. Passou a infância no campo. Começou a sua vida profissional como arquiteto. Após a publicação dos primeiros romances, dedicou-se exclusivamente à escrita. 
Tess of  the d' Urbervilles, adaptado ao cinema em 1979, por Roman Polanski, e Jude the Obscure são considerados clássicos da literatura. Receberam duras críticas por não se enquadrarem nos valores morais da época vitoriana. 
Far from the Madding Crowd foi o seu maior sucesso literário.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

LENDA

Imagem daqui.


"LENDA

Há muitos, muitos anos já - tantos
que o real mal esboçava o corpo
do que viria a ser fantasia e lenda
e o homem era um bicho inocente
e natural pois nem sequer inventara
ainda mistérios para depois da morte,
lugares recônditos para o amor
e coisas como o pecado, o crime ou a guerra
- aconteceu, certa feita, terem acordado
as gentes de terra firme, para um estranho
facto: a neblina era pesada e densa
e não se via mais a ilha . Aflitos,
os homens gritaram: «- Desapareceu
a ilha, desapareceu a ilha!»
Parecia terem-na tragado as águas,
era só um mar de chumbo a perder
de vista, um pasmo silencioso sem
o claro rumor de gaivotas e velas brancas
na baía. Quando voltou a surgir,
raiava o sol e a ilha estava no céu,
reclinada entre nuvens e azul,
o insuportável diamante iridiscente
de que ainda hoje guarda o resplendor."

Rui Knopfli, Obra Poética, Lisboa, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 2003, p. 347.


Rui Knopfli, poeta, jornalista e crítico literário e de cinema, nasceu em Inhambane, Moçambique, no dia 10 de agosto de 1932, tendo falecido em Lisboa a 25 de dezembro de 1997.

 

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

SUGESTÃO DE LEITURA (27)


(...) - O que vou dizer é difícil. Deve compreender... Enfim para não estarmos com prólogos, arreio a trouxa e falo com o coração na mão.
Tossi, encalistrado:
- Está aí. Resolvi escolher uma companheira. E como a senhora me quadra... Sim, como me engracei da senhora quando a vi pela primeira vez...
Engasgei-me. Séria, pálida, Madalena permaneceu calada, mas não parecia surpreendida.
- Já se vê que não sou o homem ideal que a senhora tem na cabeça.
Afastou a frase com a mão fina, de dedos compridos:
- Nada disso. O que há é que não nos conhecemos.
- Ora essa! Não lhe tenho contado pedaços da minha vida? O que não contei vale pouco. A senhora, pelo que mostra e pelas informações que peguei, é sisuda, económica, sabe onde tem as ventas e pode dar uma boa mãe de família.
Madalena foi à janela e esteve algum tempo debruçada, olhando a rua. Quando se voltou, eu passeava pela sala, enchendo o cachimbo.
- Deve haver muitas diferenças entre nós.
- Diferenças? E então? Se não houvesse diferenças, nós seríamos uma pessoa só. Deve haver muitas. Com licença, vou acender o cachimbo. A senhora aprendeu várias embrulhadas na escola, eu aprendi outras quebrando a cabeça por este mundo. Tenho quarenta e cinco anos. A senhora tem uns vinte.
- Não, vinte e sete.
- Vinte e sete? Ninguém lhe dá mais de vinte. Pois aí está. Já nos aproximámos. Com um bocado de boa vontade, em uma semana estamos na igreja.
- O seu oferecimento é vantajoso para mim, seu Paulo Honório - murmurou Madalena. - Muito vantajoso. Mas é preciso reflectir. De qualquer maneira, estou agradecida ao senhor, ouviu? A verdade é que sou pobre como Job, entende?
- Não fale assim, menina? E a instrução, a sua pessoa, isso não vale nada? Quer que lhe diga? Se chegarmos a acordo, quem faz um negócio supimpa sou eu. 

RAMOS, Graciliano - São Bernardo. Lisboa: Caminho. 1999. 157 p. ISBN 972-21-0540-X

Livro disponível na BE.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

XADREZ NA BIBLIOTECA (5)

Fotografia de grupo
Na BE, hoje, foram entregues certificados a todos os alunos, uma lembrança à única participante feminina e prémios aos vencedores: Luís Ferreira e João Araújo (10.º C), Bruno Azevedo (11.º G), João Torres (11.º J) , Paulo Ferreira e Reydleon Paulo (12.º A).

A PROPÓSITO DO TORNEIO DE XADREZ

No xadrez como na vida, a melhor jogada é sempre a que se realiza.

Siegbert Tarrash
  

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

XADREZ NA BIBLIOTECA (4)

Fotografias do Professor Martinho Rangel
Realizou-se o II Torneio de Xadrez da ESJS com a participação de vinte e um alunos.

DA SAUDADE VI

Saudade, Almeida Júnior (1899)
Imagem daqui.


“A SAUDADE PORTUGUESA
É inexacta a ideia que outras nações desconheçam esse sentimento. Ilusória é a afirmação (já quase quatro vezes secular), que mesmo o vocábulo Saudade – mavioso nome que tão meigo soa nos lusitanos lábios –, não seja sabido dos Bárbaros estrangeiros (estrangeiro e bárbaro são sinónimos), não tenha equivalente em língua alguma do globo terráqueo e distinga unicamente a faixa atlântica, faltando mesmo na Galiza de além-Minho.
Há quatro vozes peninsulares, de origem neolatina todas elas, que são sinónimas de saudade. E todas elas foram já citadas por críticos nacionais e estrangeiros.
Certo é apenas que não correspondem plenamente ao termo português. Certo, sobretudo, que não têm nem de longe, na economia dos respectivos idiomas-irmãos, a importância e frequência da saudade na língua portuguesa; nem tão-pouco o quid, o não-sei-quê, de misterioso que lhe adere.
Isso vale tanto do castelhano soledad soledades (do mesmo modelo etimológico, evidentemente), como do asturiano senhardade, de singularitate; vale tanto do vulgarismo galiziano morrinha, como do catalão anyoransa, anyorament (…)
Apesar dessas conformidades não nego de maneira alguma que o doloroso e doentio achar menos daquilo que amamos – pessoa ou coisa – provocado pelo allontanamento quer corporal quer espiritual, o ricordarsi del tempo felice nella miseria, fosse mais frequente do que algures, na terra portuguesa, e nos séculos dos Descobrimentos e das Conquistas longínquas na África, Ásia, América. Nem nego que a Saudade seja traço distintivo da melancólica psique portuguesa e das suas manifestações musicais e líricas, muito mais do que a Sehnsucht é característica da alma germânica. (…)
A saudade e o morrer de amor (outra face do mesmo prisma de tenra afectividade e da mesma resignação apaixonada) são realmente as sensações que vibram nas melhores obras da literatura portuguesa, naquelas que lhe dão nome e renome. Elas perfumam o meigo Livro de Bernardim Ribeiro e os livros que estilisticamente derivam dele, como a Consolação de Israel de Samuel Usque, e as Saudades da Terra de Gaspar Frutuoso. Perfumam as Rimas de Camões e os Episódios e as Prosopopeias dos Lusíadas. Perfumam as Cartas da Religiosa Portuguesa; e as criações mais humanas de Almeida Garrett, a Joaninha dos olhos verdes e as figuras todas de Frei Luís de Sousa. Não faltam no Cancioneiro do povo; nem já faltavam, na sua fase arcaica, nos reflexos cultos da musa popular que possuímos, isto é nos cantares de amor e de amigo dos trovadores galego-portugueses, no período que se prolongou até aos dias de Pedro e Inês (…).”
Carolina Michaëlis de Vasconcelos, “A Saudade Portuguesa”, in Filosofia da Saudade, Seleção e Organização de Afonso Botelho e António Braz Teixeira, Coleção Pensamento Português, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1986, pp. 145-149.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

150 ANOS DEPOIS...

(...) Se eu pudesse ainda ver-te feliz neste mundo; se Deus permitisse à minha alma esta visão!... Feliz, tu, meu pobre condenado!... Sem o querer, o meu amor agora te fazia injúria, julgando-te capaz de felicidade! Tu morrerás de saudade se o clima do desterro te não matar ainda antes de sucumbires à dor do espírito.
A vida era bela, era, Simão, se a tivéssemos como tu ma pintavas nas tuas cartas, que li há pouco! Estou vendo a casinha que tu descrevias defronte de Coimbra, cercada de árvores, flores e aves. A tua imaginação passeava comigo às margens do Mondego, à hora pensativa do escurecer. Estrelava-se o céu, e a lua abrilhantava a água. Eu respondia com a mudez do coração ao teu silêncio, e, animada por teu sorriso, inclinava a face ao teu seio, como se fosse ao de minha mãe. Tudo isto li nas tuas cartas; e parece que cessa o despedaçar da agonia enquanto a alma se está recordando. Noutra carta, me falavas em triunfos e glórias e imortalidade do teu nome. Também eu ia após da tua aspiração, ou adiante dela, porque o maior quinhão dos teus prazeres de espírito queria eu que fosse meu. Era criança há três anos, Simão, e já entendia  os teus anelos de glória, e imaginava-os realizados como obra minha, se me tu dizias, como disseste muitas vezes, que não serias nada sem o estímulo do meu amor.
Oh! Simão, de que céu tão lindo caímos!

 Camilo Castelo Branco, Amor de Perdição (1862)

Livro disponível na BE.

MANOEL DE OLIVEIRA

Aniki Bobó, de Manoel de Oliveira (1942)
Imagem daqui.

Manoel de Oliveira nasceu em Cedofeita, Porto, no dia 11 de dezembro de 1908 e é cinesta desde 1927. Aniki Bobó, a sua primeira longa metragem, é o primeiro entre muitos filmes de ficção que, em boa hora, continua a realizar.


segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

DIA INTERNACIONAL DOS DIREITOS HUMANOS

Imagem retirada de Os Quatro Grandes Problemas Mundiais, Área de Projeto, 12.º L, ESJS (2011)

Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade. 

Declaração Universal dos Direitos Humanos (Artigo 1.º)

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

DA SAUDADE V

Miranda, John William Waterhouse, 1875
Imagem daqui.
 

“XII
SAUDADE
Séculos são, na vida que enfastia,
Estes dias de exílio amargurados;
Um por um, mágoa a mágoa, vão contados
Em lenta e cruelíssima agonia.
Oh! roubemos-lhe ao menos este dia,
Ao padecer que todos traz roubados
Sejam pela amizade consagrados
Ao casto amor instantes de alegria.
Tem prazeres também a desventura:
A própria carrancuda adversidade
Sorri coa esp’rança que lhe luz futura.
Vem, amigo, no seio da amizade
Festeja a esposa, sonha coa ventura
Que um dia há-de matar tanta saudade.”
 
Londres – 1828
Obras de Almeida Garrett, Vol. I, Porto, Lello & Irmão Editores, s.d., p.1722.


NA ESCOLA ... DE NOVO NO AR

Cartaz da autoria de alunos do Núcleo da Rádio

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

OSCAR NIEMEYER

Imagem daqui.
 
Oscar Niemeyer.    Brasileiro.    Arquiteto.    1907-2012.
 
 

LAZARILHO DE TORMES

"El Garrotillo", de Francisco Goya (1746-1828) - identificado com uma cena do Lazarilho de Tormes.
Imagem daqui.


“TRATADO I
LÁZARO CONTA A SUA VIDA E DE QUEM É FILHO
Saiba, pois, vossa mercê, antes de tudo o mais, que me chamam Lázaro de Tormes, filho de Tomé Gonçalves e de Antónia Peres, naturais de Telhares, aldeia de Salamanca. Nasci dentro do rio Tormes, pelo que dele tomei o sobrenome. E assim foi. O meu pai (que Deus lhe perdoe!) tinha o cargo de alimentar o moinho duma azenha, que há na margem daquele rio, na qual foi moleiro mais de quinze anos. E estando a minha mãe uma noite na azenha, grávida de mim, vieram-lhe as dores do parto e pariu-me ali. De modo que com verdade me posso considerar nascido no rio.
Ora, sendo eu menino de oito anos, atribuíram ao meu pai certas sangrias abusivas que apareceram nos costados dos sacos que ali levavam para moer, e por isso foi preso, e confessou e não negou, e sofreu castigo da justiça. Espero em Deus que esteja em glória, porque o Evangelho lhes chama bem-aventurados. Nesse tempo organizou-se uma expedição contra os mouros, e nela foi o meu pai, que então estava desterrado por via do desaire de que falei, com o cargo de azemeleiro de um cavaleiro que foi na expedição. E com o seu senhor, como leal criado, se extinguiu a sua vida.
Minha viúva mãe, como se visse sem marido nem amparo, decidiu encostar-se aos bons para ser um deles, e veio viver para a cidade (…)”
Lazarilho de Tormes, trad. de Arsénio Mota, coleção Os Clássicos Espanhóis, Barcelos, Livraria Civilização Editora, 1977, pp.19-20.

O SEGREDO DE BARCARROTA

Edição de El Lazarillo de Tormes, Medina del Campo (Valladolid), 1554.
Um dos "achados" de Barcarrota.
Imagem daqui.
 

“PRÓLOGO
Barcarrota é uma pacata e simpática vila a meio caminho entre Badajoz e Zafra, a uma mirada apenas da raia portuguesa.
Barcarrota tem um antigo castelo adaptado para praça de touros e para cinema ao ar livre no Verão, com uma torre de menagem de onde se podem vislumbrar lonjuras e azulejos na entrada celebrando os feitos de antigos matadores.
Barcarrota tem um pequeno casino em Arte Nova, no qual, porém, dificilmente imaginamos fortunas perdidas nos vícios da sorte e do azar.
Barcarrota tem uma igreja a que chamam de Nuestra Señora del Soterraño, onde retábulos barrocos marianos se misturam com Cristos góticos, como se quisesse dar a entender que mãe e filho se entrecruzam nos caminhos de estilos tão diferentes.
Barcarrota tem uma igreja a que chamam de Santiago, cujas grossas paredes românicas evocam memórias sarracenas e recordações romanas. Outras gentes…
Barcarrota tem ruelas medievais que cheiram ainda a judiaria, com arcos e casas brancas e restos de portas que outrora se deviam cerrar ao fim das tardes. Era a lei…
Barcarrota tem orgulho em ser o berço de Hernando de Soto, explorador das Américas, e até lhe ergueu uma estátua em bronze…
(o cavaleiro)
… e em ferro forjado
(o cavalo)
… pois é dever de boa terra homenagear os seus melhores filhos.
Barcarrota tem fontes, praças e pilares, escudos e arcos, cruzeiros, memórias e janelas gradeadas e tem hoje praticamente tantos habitantes como há cinco séculos. Aqui, de resto, nada de muito estranho ou de extravagante acontece, sendo esse, aliás, um dos seus maiores encantos.
Porém, em 1992, quando o pedreiro António Perez abriu uma parede de uma casa ancestral no centro da vila, um segredo com quase quinhentos anos caiu nos braços da pacata e simpática vila.
E Barcarrota não voltou a ser a mesma.”
Sérgio Luís de Carvalho, O Segredo de Barcarrota, Alfragide, Oficina do Livro, 2011, pp.11-12.


quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

CAMILO CASTELO BRANCO: SOBRE O ESPIRITUOSO

Camilo Castelo Branco, por Mário Santos, 1917
O artista utilizou como base do retrato o documento fotográfico, uma vez que Camilo se suicidou a 1 de junho de 1890. O pintor escolheu uma fotografia – rara, aliás – em que Camilo aparece sem o seu inseparável “pince-nez”.
 

 
“Ordinariamente, chamam-se, à francesa, «espirituosos» uns sujeitos dotados de génio motejador, aplaudidos com a gargalhada, e aborrecidos àqueles mesmos que os aplaudem. São os caricaturistas da graciosidade.
O «espirituoso», à moderna, abrange os variados ofícios que, antes da nacionalização daquele estrangeirismo, pertenciam parcialmente aos seguintes personagens, uns de casa, outros importados: chocarreiro – trejeiteador – arlequim – palhaço – proxinela – polichinelo – maninelo – truão – jogral – goliardo – histrião – farsista – farsola – vejete – bobo – pierrot – momo – bufão – folião, etc.
Esta riqueza de sinonímia denota que o «bobo» medieval bracejou na Península Ibérica vergônteas e enxertias em tanta cópia que foi preciso dar nome às espécies.
Ora, o «espirituoso» tem de todas. A antiga «jogralidade», que era mester vil, acendrada nos secretos crisóis do progresso social, chegou a nós afidalgada em «espírito», e com o foro maior da faculdade poderosa, cáustica, implacável. (…)
Há poucos meses, faleceu em Lisboa um «espirituoso» que andou trinta ou quarenta anos a passear a sua reputação entre o Chiado e o Rossio. As gazetas, ao mesmo passo que nos inculcavam o defunto como pessoa que vivera aventurosamente uns setenta anos tingidos com primoroso pincel, descontavam nestes defeitos a sua imensa graça, e reproduziram nova edição melhorada das suas anedotas.
Averiguado o «espírito» do homem em coisas burlescas de que fez mercancia na feira política, liquida-se, quando muito, um folião que desbragava a pena e desembestava asselvajadamente o insulto. Por este, que não deixou nome sobrevivente para vinte e quatro horas – nem o terá aqui –, orça a maioria dos jograis que tenho visto, nos últimos trinta anos, esburgar o osso da facção que lhes alquila o engenho detraidor, e acabarem antes da geração que os galardoou com a moeda falsa das risadas.
O satírico de sala e botequim é mais funesto e menos trivial que o político; mais funesto porque vulnera melindres – coisa que o caloso peito da política não tem nem finge; menos trivial, porque o chiste de Sterne, de Byron, de Voltaire, do padre Isla, de Heine e Boerne não apegou aqui, nem se adelgaça à feição da nossa índole, bem acentuada nas chocarrices plebeias de Gil Vicente e António José.
É mais funesto, repito; porque me ocorre hoje, regressando das Caldas de Vizela, uma história funestíssima de que só eu posso lembrar-me. Duas chalaças terçadas entre dois amigos cavaram sepulturas de vidas e honras. Se as novelas pudessem ensinar alguma coisa, corrigindo aleijões da alma, eu pediria aos gracejadores que lessem isto; e, nas ocasiões em que a língua lhes descabe na boca, engrossada pela opilação da dicacidade, a refreassem com os dentes. (…)”
Camilo Castelo Branco, “Gracejos que Matam”, in Novelas do Minho, Lisboa, Bertrand Editores, 2009, pp.21-22.

NOVO NA BE


Nós Portugueses é um projeto da Fundação Francisco Manuel dos Santos, em parceria com a RTP, elaborado a partir dos dados da Pordata.
Os sessenta programas apresentados diariamente no Telejornal, entre outubro e dezembro de 2011, foram gravados num único DVD, que a Fundação Francisco Manuel dos Santos, através da Rede de Bibliotecas Escolares, ofereceu às escolas secundárias do país.
Este DVD constitui um recurso pedagógico útil para o conhecimento da realidade portuguesa e da sua evolução em diversas áreas: Educação, Saúde, Famílias, Empresas, Emprego, População, Contas Nacionais, Contas do Estado, Ciência, Cultura, Ambiente, Justiça, e, ainda, um ponto de partida para o aprofundamento de pesquisa em outras fontes, nomeadamente, no sítio da Pordata .

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

ANTERO DE QUENTAL - Causas da Decadência dos Povos Peninsulares III

Retrato de Antero de Quental, Cruz Caldas, 1950?
 

“No princípio do século XVII quando Portugal deixa de ser contado entre as nações, e se desmorona por todos os lados a monarquia anómala, inconsistente e desnatural de Filipe II; quando a glória passada já não pode encobrir o ruinoso do edifício presente, e se afunde a Península sob o peso dos muitos erros acumulados, então aparece fraca e patente por todos os lados a nossa improcrastinável decadência. Aparece em tudo; na política, na influência, nos trabalhos da inteligência, na economia social e na indústria, e como consequência de tudo isto, nos costumes. A preponderância, que até então exercêramos nos negócios da Europa, desaparece para dar lugar à insignificância e à impotência. (…) Em Portugal, é a influência inglesa, que, por meio de cavilosos tratados, faz de nós uma espécie de colónia britânica. Ao mesmo tempo as nossas próprias colónias escapam-nos gradualmente das mãos: as Molucas passam a ser holandesas; na Índia lutam sobre os nossos despojos holandeses, ingleses e franceses; na China e no Japão desaparece a influência do nome português. Portugueses e espanhóis, vamos de século para século minguando em extensão e importância, até não sermos mais do que duas sombras, duas nações espectros, no meio dos povos que nos rodeiam!... (…) Por isso decai também a vida económica: a produção decresce, a agricultura recua, estagna-se o comércio, deperecem uma por uma as indústrias nacionais; a riqueza, uma riqueza faustosa e estéril, concentra-se em alguns pontos excepcionais, enquanto a miséria se alarga pelo resto do país: a população, dizimada pela guerra, pela emigração, pela miséria, diminui de uma maneira assustadora. Nunca povo algum absorveu tantos tesouros, ficando ao mesmo tempo tão pobre!”
Antero de Quental, Causas da Decadência dos Povos Peninsulares, discurso pronunciado na noite de 27 de maio [1871], na Sala do Casino Lisbonense, Lisboa, Guimarães Editores, 2001, pp.25-26.


sexta-feira, 30 de novembro de 2012

SEM PALAVRAS VI

Canto Ostinato, Simeon ten Holt

PROSA DE FERNANDO PESSOA


Laura Cesana, Homenagem a Fernando Pessoa



«UM GRANDE PORTUGUÊS»

(1926)

Vivia, há já não poucos anos, algures num concelho do Ribatejo, um pequeno lavrador, e negociante de gado, chamado Manuel Peres Vigário. 
Da sua qualidade, como diriam os psicólogos práticos, falará o bastante a circunstância que dá princípio a esta narrativa. Chegou uma vez ao pé dele certo fabricante ilegal de notas falsas, e disse-lhe: « Sr. Vigário, tenho aqui umas notazinhas de cem mil réis que me falta passar. O sr. quer? Largo-lhas por vinte mil réis cada uma». «Deixa ver», disse o Vigário; e depois, reparando logo que eram imperfeitíssimas, rejeitou-as: «Para que quero eu isso?» disse; «isso nem a cegos passa». O outro, porém, insistiu; Vigário cedeu um pouco, regateando; por fim fez-se o negócio de vinte notas, a dez mil réis cada uma. 
Sucedeu que dali a dias tinha o Vigário que pagar a uns irmãos, negociantes de gado como ele, a diferença de uma conta, no valor certo de um conto de réis. No primeiro dia de feira, em a qual se deveria efectuar o pagamento, estavam os dois irmãos jantando numa taberna escura da localidade , quando surgiu pela porta, cambaleante de bêbado, o Manuel Peres Vigário. Sentou-se à mesa deles, e pediu vinho. Daí a um tempo, depois de vária conversa, pouco inteligível da sua parte, lembrou que tinha que pagar-lhes. E, puxando da carteira, perguntou se se importavam de receber tudo em notas de cinquenta mil réis. Ele disseram que não: e, como a carteira nesse momento se entreabrisse, o mais vigilante dos dois chamou, com um olhar rápido, a atenção do irmão para as notas, que se via que eram de cem. Houve então a troca de outro olhar. 
O Manuel Peres, com lentidão, contou tremulamente vinte notas, que entregou. Um dos irmãos guardou-as logo, tendo-as visto contar, nem se perdeu em olhar mais para elas. O Vigário continuou a conversar e, várias vezes, pediu e bebeu mais vinho. Depois, por natural efeito da bebedeira progressiva, disse que queria ter um recibo. Não era uso, mas nenhum dos dois irmãos fez questão. Ditava ele o recibo, disse, pois queria as coisas todas certas. E ditou o recibo - um recibo de bêbado, redundante e absurdo: de como em tal dia, a tais horas, na taberna de fulano, «estando nós a jantar» (e por ali fora com toda a prolixidade frouxa de bêbado...), tinham eles recebido de Manuel Peres Vigário, do lugar de qualquer coisa, em pagamento de não sei quê, a quantia de um conto de réis em notas de cinquenta mil réis. O recibo foi datado, foi selado, foi assinado. O Vigário meteu-o na carteira, demorou-se mais um pouco, bebeu ainda mais vinho, e daí a um tempo foi-se embora.
Quando, no próprio dia ou no outro, houve ocasião de se trocar a primeira nota, o que ia recebê-la devolveu-a logo, por escarradamente falsa, e o mesmo fez a seguir à terceira... E os irmãos, olhando então verdadeiramente para as notas, viram que nem a cegos se poderiam passar. 
Queixaram-se à polícia, e foi chamado o Manuel Peres, que, ouvindo atónito o caso, ergueu as mãos ao céu em graças da bebedeira  providencial que o havia colhido no dia do pagamento. Sem isso, disse, talvez, embora inocente, estivesse perdido. 
Se não fosse ela, explicou, nem pediria recibo, nem com certeza o pediria como aquele que tinha, e apresentou, assinado pelos dois irmãos, e que provava bem que tinha feito pagamento em notas de cinquenta mil réis. «E se eu tivesse pago em notas de cem», rematou o Vigário, «nem eu estava tão bêbado que pagasse vinte, como estes senhores dizem que têm, nem muito menos eles, que são homens honrados, mas recebiam.» E, como era de justiça, foi mandado em paz. 
O caso, porém, não pôde ficar secreto; pouco a pouco se espalhou. E a história do «conto de réis do Manuel Vigário» passou, abreviada em «o conto do Vigário», para a imortalidade quotidiana, esquecida já da sua admirável origem. 
Os imperfeitíssimos imitadores, pessoais como políticos, do Mestre ribatejano nunca chegaram, que eu saiba, a qualquer simulacro digno do estratagema exemplar. Por isso é com ternura que relembro o feito deste grande português, e me figuro, em devaneio, que , se há um céu para os hábeis, com constou que o havia para os bons, ali lhe não deve ter faltado o acolhimento dos próprios grandes mestres da Realidade - nem um leve brilho de olhos de Machiavelli ou de Guicciardini, nem um sorriso momentâneo de George Saville, Marquês de Halifax. 

ZENITH, Richard (ed.) - Obra Essencial de Fernando Pessoa: Prosa Publicada em Vida. Rio de Mouro: Círculo de Leitores, 2006. 479 p. ISBN 978-972-42-3897-5


Livro disponível na BE.