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Escola Secundária José Saramago - Mafra

quarta-feira, 21 de junho de 2017

segunda-feira, 12 de junho de 2017

A CADEIRA AMARELA


Vincent Van Gogh, A Cadeira de Van Gogh (1888).
Imagem daqui.



Per F.C.

"A CADEIRA AMARELA", DE VAN GOGH


No chão de tijoleira uma cadeira rústica,
rusticamente empalhada, e amarela sobre
a tijoleira recozida e gasta.
No assento da cadeira, um pouco de tabaco num papel
ou num lenço (tabaco ou não?) e um cachimbo.
Perto do canto, num caixote baixo,
a assinatura. A mais do que isto, a porta,
uma azulada e desbotada porta.
Vincent, como assinava, e da matéria espessa,
em que os pincéis se empastelaram suaves,
se forma o torneado, se avolumam as
travessas da cadeira como a gorda argila
das tijoleiras mal assentes, carcomidas, sujas.

Depois das deusas, dos coelhos mortos,
e das batalhas, príncipes, florestas,
flores em jarras, rios deslizantes,
sereno lusco-fusco de interiores de Holanda,
faltava esta humidade, a palha de um assento,
em que o vício modesto - o fumo - foi esquecido,
ou foi pousado expressamente como sinal de que
o pouco já contenta quem deseja tudo.

Não é no entanto uma cadeira aquilo
que era mobília pobre de um vazio quarto
onde a loucura foi piedade em excesso
por conta dos humanos que lá fora passam,
lá fora riem, mas de orelhas que ouçam
não querem mesmo numa salva rica
um lóbulo cortado, palpitante ainda,
banhado em algum sangue, o «quantum satis»
de lealdade, amor, dedicação, angústia,
inquietação, vigílias pensativas,
e sobretudo penetrante olhar
da solidão embriagadora e pura.

Não é, não foi, nem mais será cadeira:
Apenas o retrato concentrado e claro
de ter lá estado e ter lá sido quem
a conheceu de olhá-la, como de assentar-se
no quarto exíguo que é só cor sem luz
e um caixote ao canto, onde assinou Vincent.

Um nome próprio, um cachimbo, uma fechada porta,
um chão que se esgueira debaixo dos pés
de quem fita a cadeira num exíguo espaço,
uma cadeira humilde a ser essa humildade
que lhe rói de dentro o dentro que não há
senão no nome próprio em que as crianças têm
uma fé sem limites por que vão crescendo
à beira da loucura. Há quem assine,
a um canto, num caixote, o seu nome de corvo.
E há cantos em pintura? Há nomes que resistam?
Que cadeira, mesmo não-cadeira, é humildade?
Todas, ou só esta? Ao fim de tudo,
são só cadeiras o que fica, e um modesto vício
pousado sobre o assento enquanto as cores se empastam?


Lisboa, 21-5-1959


A Arte de Jorge de Sena, edição de Jorge Fazenda Lourenço, Lisboa, Relógio d'Água Editores, 2004, pp. 63-64.




sábado, 10 de junho de 2017

DIA DE CAMÕES


Busto de Luís de Camões. Real Gabinete Português de Leitura, Rio de Janeiro.
Imagem daqui.




XXVII


EM LOUVOR DO GRANDE CAMÕES


Sobre os contrários e terror e a morte
Dardeje embora Aquiles denodado,
Ou no rápido carro ensanguentado
Leve arrastos sem vida o Teucro forte:

Embora o bravo Macedónio corte
Coa a fulminante espada o nó fadado,
Que eu de mais nobre estímulo tocado,
Nem lhe amo a glória, nem lhe invejo a sorte:

Invejo-te, Camões, o nome honroso;
Da mente criadora o sacro lume,
Que exprime as fúrias de Lieu raivoso:

Os ais de Inês, de Vénus o queixume,
As pragas do gigante proceloso,
O céu de Amor, o inferno do Ciúme.

Manuel Maria Barbosa du Bocage, "Sonetos", in Obras de Bocage, Porto, Lello & Irmão Editores, 1968, p. 281.




sexta-feira, 9 de junho de 2017

CURSO DE VERÃO SOBRE A ÍNDIA


Cartaz e todas as informações aqui.



CONTRARIEDADES - Variação Criativa XXI


Imagem daqui.



Foi-me dito que podia ser o que eu quisesse; foi-nos dito que podíamos fazer o que quiséssemos; só no final me apercebi de que ou sou uma pedra da escada de alguém ou sou alguém a subir uma escada de pedras.

Henrique Antunes, Aluno do 11º SE3 desta Escola.



quinta-feira, 8 de junho de 2017

CONTRARIEDADES - Variação Criativa XX


Imagem daqui.




Acordei ao contrário,
Não foi muito mau,
Simplesmente acordei de barriga para baixo,
De olhos abertos,
E para me levantar ao contrário
Foi complicado,
Porque o seu contrário
É apenas ficar deitado.
Ali fiquei, a pensar
Que tinha de me levantar
Para ir estudar,
Mas depois pensei:
Se for ao contrário,
Então eu estou de férias.
Tive de ignorar essa ideia
Pois facilmente me levantava ao contrário
E faltava às férias ao oirártnoc!...

Miguel Jacinto, Aluno do 11º CT5 desta Escola.