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Escola Secundária José Saramago - Mafra

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

DA CONCISÃO LXXXV (OUTONO)


Imagem daqui.



11

O outono
também é
uma coisa
que começa


Paul Claudel, Cent phrases pour éventails (1927), in "Vozes da Poesia Europeia - III", Colóquio-Letras, traduções de David Mourão-Ferreira, número 165, setembro-dezembro de 2003, p. 28.



quinta-feira, 21 de setembro de 2017

SALA CHEIA


Robert Doisneau,  Une salle de classe (1957).
Imagem daqui.




NÃO HÁ

Não há o mestre
Não há o aprendente,
Não há o trimestre
Não há o correr surpreendente.
Não há o toque
Não há o chegar atrasado,
Não há o chegar a reboque
Não há o rosto resignado.
Não há a parte teórica
Não há a indesejada gramática,
Não há o prazer da retórica
Não há a vantagem da prática.
Não há o grupo ou o par
Não há a definição do tema,
Não há o movimento a trabalhar
Não há o estratagema.
Não há o artigo que se lê
Não há a mensagem que desafia,
Não há a imagem que se vê
Não há a opinião que contraria.
Não há a canção
Não há a rima,
Não há a atenção
Não há o tom que se afina.
Não há o poema
Não há a linha,
Não há o fonema
Não há a entoação que convinha.
Não há a pintura
Não há a fotografia,
Não há o texto com rasura
Não há a ilegível caligrafia.
Não há a janela por onde se espreita
Não há o livro aberto,
Não há a resposta que deleita
Não há o olhar desperto.
Não há a ânsia da saída
Não há a matéria já arrumada,
Não há a voz já não ouvida
Não há a palavra já não registada.

Há  uma sala cheia de quase tudo
Que pode parecer quase nada!


Maria Manuel Reis, Professora desta Escola.



quarta-feira, 20 de setembro de 2017

COISAS DESOLADORAS, COISAS QUE FAZEM BATER O CORAÇÃO, COISAS SEM VALOR, COISAS QUE DEVEM SER BREVES...

Imagem daqui.




Uma das coisas mais desoladoras na vida (senão a maior!) deve ser amar uma pessoa que não nos ama. Que o digam os grandes poetas e românticos da História. Para além de teres o coração partido em mil pedaços, sentes que ninguém te compreende e, pior ainda, tornas-te motivo de pena.

Mas que sei eu de amor? Na realidade não sei nada e ainda bem. É certo que tenho as minhas paixonetas. Tenho aquela pessoa especial que me aquece a alma e faz bater o coração de uma forma diferente de um filme de terror ou de um momento em que estou prestes a tomar uma decisão precipitada. Aquela pessoa em redor da qual a minha mente vagueia constantemente.

Não digo que esta paixão me tenha partido o coração, mas, infelizmente, também não o colou de volta.

Diana Freire, Aluna do 12º SE1 desta Escola.




"PORTUGAL FUTURISTA" E OUTRAS PUBLICAÇÕES DE 1917


Capa do número único de "Portugal Futurista".



«(...) Portugal Futurista não foi, efetivamente, uma revista qualquer. A sua apreensão imediata é bem reveladora do seu conteúdo, tão invulgar quanto o de Orpheu, saída dois anos antes, e que ainda hoje nos faz sorrir. Uma carta datada de 11 de julho de 1917 pretende precisamente reatar a provocação e mostrar como existe uma continuidade entre as duas revistas, ainda que falemos de coisas (e protagonistas) diferentes. Da autoria de Fernando Pessoa, a carta fala da possibilidade de ainda editar um terceiro número de Orpheu, edição que nunca chegou a acontecer na sua vida. (...)»


Mostra patente na Biblioteca Nacional, de 26 de setembro a 30 de dezembro de 2017.



terça-feira, 19 de setembro de 2017

GRAMÁTICA UNIVERSAL


Painéis de São Vicente.

Painel do Infante.
Imagens daqui.



«(...) Em 1960, através de uma série de entrevistas a Almada Negreiros, o Diário de Notícias anunciava a conclusão de extensos estudos que tinham levado o entrevistado à "teoria fundamental que rege o curso da humanidade", o cânone, imutável "e permanente em cada pessoa humana". O objecto dos estudos tinha sido, fundamentalmente, os painéis de São Vicente. Numa síntese entre racionalidade geométrica e messianismo nacionalista, Almada descobrira uma gramática universal - mas interpretada pela obra maior de uma tradição nacional - anterior a qualquer opinião - mas por onde todas as opiniões teriam de se exprimir -, impossível de ensinar porque imanente, um "conhecimento" em que "permanecem para todas as circunstâncias do espaço e do tempo todas as constantes encontradas primeiro". Mais do que épico, o tom é (...) messiânico, o que dá aos seus trabalhos um carácter de profecia que os coloca para além de qualquer discussão:

"A eruditos apresento o resultado. Sujeito-me absolutamente à competência das suas respectivas erudições. Que venham. Mas não queiram trazer cálculo a conhecimento cuja característica é não o ter. Se o cálculo confirmar, parabéns ao cálculo. Se não confirmar, cuidado com o cálculo."

(...) É impossível não ver na indiferença perante o "cálculo" dos eruditos sobre o cânone a mesma recusa expressa numa crítica à peça Adão e Eva de Jaime Cortesão, que é também uma tentativa de afirmação geracional, quarenta anos antes, nas páginas do Diário de Lisboa: "Mau vai, quando a nossa cabeça começa a lançar mão de raciocínio. (...) Isso era dantes. Antes de nós termos nascido. Já houve vinte séculos e mais de raciocínio, já está tudo raciocinado."(...)»


Luís Trindade, "A forma de Almada: o século XX de Almada Negreiros", in José de Almada Negreiros - Uma Maneira de Ser Moderno, catálogo da exposição patente entre 3 de fevereiro e 5 de junho de 2017, na galeria principal e na galeria do piso inferior do edifício sede da Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, Museu Calouste Gulbenkian, 2017, p. 78.




segunda-feira, 18 de setembro de 2017

CONSELHOS QUE DARIA A UM MARCIANO ACABADINHO DE ATERRAR NA MINHA RUA...


Imagem do filme Close Encounters of the Third Kind (1977), de Steven Spielberg. Daqui.



A um marciano que eventualmente aterrasse na minha rua, far-lhe-ia desde logo alguns avisos prévios que ele deveria ter em conta, caso quisesse sair tal e qual tinha entrado.

Em primeiro lugar, informava-o de que vivo na porta nº 11, tenho um cão considerado de raça perigosa (e não tenho a típica placa onde se lê «Cuidado com o cão!», de propósito para surpreender os mais «curiosos») e que seria apenas benéfico para ele não ousar incomodar-me a horas desapropriadas.

Em segundo lugar, os meus vizinhos são meus familiares, e esta postura intimidatória é algo comum a todos; em vista disso não recomendaria nenhum tipo de gesto mais precipitado. Caso ele tivesse fome, eles também não seriam uma boa opção, pois o forte da minha tia não é bem a culinária.

Por último, e este, sim, um conselho positivo, no início da rua vive uma família acolhedora, à qual pertence uma filha mais bonita que o habitual, portanto, se ele necessitasse de alguma coisa, e caso lhe restassem dois dedos de testa, era lá que deveria tocar.

André Afonso, Aluno do 12º SE1 desta Escola.




sexta-feira, 15 de setembro de 2017

DUALISMO


Imagem daqui.




DUALISMO

Fosse a vida duas,
Já não digo sete
Que aborrece em excesso,
Mas em par, o ideal,
Para que em desigualdade,
Sem preocupação ordinal,
Primeira ou segunda,
Se pudesse reviver uma vida
Que à outra não fosse igual!

Maria Manuel Reis, Professora desta Escola.